Intro À luz da neurociência, a música se revela capaz de transformar nosso cérebro e seu funcionamento...
quase sempre para melhor.
Pesquisa de Alexandra Pihen Iniciar exposição

Música e cérebro:

a combinação perfeita

©Getty Images Plus - Bernard Bodo Veja em francês
Em Poucas Palavras Canção de ninar, canção de amor, rito de guerra ou sinfonia… a música acompanha o Homem desde o início dos tempos. No entanto, foi preciso aguardar o início dos anos 1990, com o advento do mapeamento cerebral, para que pudéssemos começar a compreender seus efeitos sobre o cérebro. Desde então, os estudos científicos se multiplicam com o intuito de confirmar os benefícios da música para o comportamento e o equilíbrio emocional. Ao longo dos últimos vinte anos, o aperfeiçoamento das técnicas de neuroimagem permitiu se estudar os mecanismos da neuroplasticidade ligados à aprendizagem da música. E os resultados não deixam mentir: escuta e prática musical agem sobre todas nossas funções cognitivas e a estrutura do cérebro se modifica de forma duradoura.

E isto de tal forma que os músicos constituem a população de estudo privilegiada pelos neurologistas em matéria de plasticidade cerebral.
Em poucas
palavras
Dj - ©Getty Images Plus - Bernard Bodo Foi a primeira surpresa revelada pelos estudos da neuroimagem sobre os efeitos da música.

Uma simples escuta produz o que os cientistas chamam ‘’sinfonia neural’’: a mobilização de circuitos cerebrais conhecidos por seu papel em outras áreas. A música envolve naturalmente as regiões auditivas, mas também as áreas motoras,

envolvidas no movimento e na dança, e os circuitos ligados à recompensa, ligados às lembranças e as emoções. As regiões visuais, por sua vez, associam espontaneamente imagens e formas, até mesmo texturas e cores, à música ouvida.
Uma sinfonia neural ©iStock - Getty Images, Bernard Bodo
Os músicos, reis da plasticidade cer Talvez, a prática musical seja a atividade que causa o estímulo mais completo em nosso cérebro. Um treino regular durante vários anos mobiliza competências que se traduzem por modificações da anatomia cerebral, principalmente a espessura cortical (massa cinzenta) e as zonas de conectividade (massa branca). Algumas destas evoluções são previsíveis, como a densidade aumentada de neurônios nas áreas auditivas e motoras: a neuroimagem permite visualizar as extensões dos dedos dos instrumentistas nas regiões cerebrais motoras e até mesmo deduzir o instrumento praticado.

Mas outras evoluções são mais surpreendentes, como uma melhor comunicação entre os dois hemisférios do cérebro.
Segundo recentes estudos, a densidade neural do hipocampo – estrutura cerebral responsável pela memória, a navegação espacial e a inibição do comportamento – está relacionada ao número de anos de prática. Além disso, entre as crianças de 5 a 6 anos, as aulas de música geram efeitos mensuráveis sobre o raciocínio verbal e a memória em curto prazo. As emoções são também envolvidas, através da secreção dos hormônios ligados ao prazer e à motivação que ativa o circuito neural da recompensa. Mesmo um treinamento de curto prazo é suficiente para modelar o cérebro: entre os septuagenários, quatro meses de aprendizagem de piano melhoram o humor e as atividades “executivas” como a atenção e o planejamento.
Os músicos, reis da plasticidade cerebral A prática musical provoca modificações em todo o cérebro, algumas delas já esperadas, outras menos.
O impacto da música no cérebro dos músicos Icone1 Modificação da massa cinzenta com a produção de novos neurônios e sinapses, modificação da morfologia neuronal, aumento da espessura cortical íCONE 2 Modificação da matéria branca com aumento do número de axônios (fibras nervosas), de sua espessura, de seu diâmetro e de sua densidade de compactação. Respostas cerebrais mais eficientes e mais amplas Solicitação dos circuitos da recompensa ligados à memória e às informações perceptivas Icone 5 Melhor oxigenação do cérebro O impacto da música
no cérebro dos músicos
Cérebro
O impacto da música no cérebro dos músicos  - 2 Cérebro icone-cortex-frontal Córtex Motor Treino individual ou coletivo
Estímulo das funções de execução: concentração, atenção, controle, planejamento e inibição das informações interferentes icone-cortex-motor Córtex Pré Frontal Precisão dos gestos no momento da prática Instrumental

Motricidade fina melhorada
O impacto da música no cérebro dos músicos  - 3 Cérebro Corpo Caloso Análise das tonalidades, do tempo, do ritmo
Discriminação cada vez mais fina e rápida das informações icone-corpo-caloso Córtex Auditivo Coordenação das duas mãos

Aumento da comunicação e da coordenação entre os dois hemisférios cerebrais
O impacto da música no cérebro dos músicos  - 4 Cérebro icone-somassensorial Corpo Caloso Tocar com ritmo, bater o pé, dançar
Reforço do tratamento sensorial das informações, da coordenação motora e da antecipação das açõesdançar Córtex Somassensorial Análise estética e emocional da música Melhor gestão das emoções
Qualidade das emoções preservada com a idade
Maior sensibilidade
Gosto reforçado pelo esforço
O impacto da música no cérebro dos músicos  - 4 Cérebro Fasciculo Arqueado Aprendizagem de novas informações
Aumento das capacidades de memória imediata e a longo prazo. Hipocampo Sincronização entre a escuta e o canto Melhor comunicação entre as áreas auditivas e as áreas de articulação e de produção dos sons
O impacto da música no cérebro dos músicos  - 4 Cérebro Cérebro Leitura das partituras, observação dos gestos Melhor estratégia viso-espacial do tratamento da informação
Córtex Visual Gestão da expiração durante o canto ou a prática de instrumentos de sopro Melhoria da eficiência cerebral no geral
O Frisson Musical Três dimensões do prazer, não exclusivas, podem ser definidas. Também chamada efeito ‘’grande oito’’, a primeira é baseada na experiência sensorial. No momento da emissão das ondas sonoras pelos instrumentos ou por uma música amplificada, onde os baixos estão bem presentes, as vibrações estimulam os receptores sensoriais externos, os da pele, ou internos, como as vísceras. O famoso ‘’frisson musical’’, segunda dimensão, está ligado à satisfação de uma expectativa construída. Longe de ser inato, o prazer é aprendido desde a infância pela experiência e a repetição de eventos musicais: o córtex auditivo analisa os sons e antecipa seu desenvolvimento. O hipocampo mobiliza, em seguida, os referenciais, que nós temos na memória, para traduzi-los em emoções através dos circuitos cerebrais da recompensa (eles próprios modulados por um transmissor, a dopamina). Quando as expectativas são satisfeitas, ou ao contrário, abaladas por um padrão musical inesperado, o prazer decorrente pode provocar arrepios.

Enfim, o prazer do amante da música, sua terceira dimensão, é uma construção cultural bem sofisticada. Ele representa o prazer musical ‘’de alta qualidade’’ que, no esteta, nasce da satisfação em decifrar uma peça musical ou apreciar uma execução perfeita.
O Frisson Musical Longe de ser monolítico, o prazer ligado à escuta passa por caminhos diferentes conforme o contexto, a peça e a cultura musical do ouvinte.
Uma memória dedicada à música A memória musical se revela, em parte, independente da memória da linguagem. Descoberta esta realizada em 2010 por neurologistas franceses. Enquanto a memória das palavras envolve apenas o hemisfério esquerdo do cérebro, a memória da música compreende mais amplamente os dois hemisférios. As áreas esquerdas são dedicadas às informações semânticas – estilos de música, nomes das obras, etc. –, por sua vez, o lado direito está voltado às informações perceptivas ou estruturais – formas melódicas, timbres dos instrumentos, pulsações, ritmos, etc. Na imagem acima, podemos ver em azul as atividades cerebrais da memória da linguagem, em vermelho, as atividades da memória musical e, em amarelo, aquelas comuns aos dois. ©M.Groussard et al.-NeuroImage 53 (2010) Privado de prazer musical De 3 a 5 % da população mundial se sente indiferente ao escutar música. Foi em 2016 que neurocientistas canadenses colocaram em evidência, pela primeira vez, esta ‘’anedonia musical’’ presente em indivíduos que, por outro lado, se sentem inclinados a outros prazeres, como os jogos de azar ou o sexo. Isto se deve a conexões bem fracas – e não explicadas – entre o córtex auditivo, que trata a informação sonora, e o núcleo accumbens, envolvido no circuito da recompensa. Ocorre o oposto entre os músicos, nos quais estas conexões são reforçadas. Outros indivíduos – aproximadamente 4% da população mundial – são totalmente privados de compreensão musical. Para estas pessoas afetadas pela ‘’amusia’’, a melodia, a harmonia e o ritmo não têm nenhum sentido, apesar das funções auditivas e da linguagem permanecerem intactas. Che Guevara, célebre amúsico, era, por exemplo, incapaz de reconhecer o hino argentino. Muitos têm, assim, essa incapacidade de distinguir um intervalo de três semitons (entre um lá e um dó, por exemplo), enquanto os bebês com menos de um ano são capazes de perceber uma diferença de um quarto de tom.

A amusia pode ser explicada por uma anomalia neurogênica congênita que se traduz por uma má transmissão neural entre o córtex auditivo e o giro frontal inferior do hemisfério direito.

No extremo oposto, em aproximadamente 1% de pessoas dotadas de ‘’ouvido absoluto’’ - capazes de reconhecer uma altura de nota sem nenhum referencial – a troca entre estas duas regiões do cérebro é reforçada.
Privado de prazer musical Por falta de prazer ou de compreensão, alguns indivíduos não têm gosto pela música. E isto pode ser percebido em seus cérebros.
©Getty Images Plus- Nattakorn Maneerat Um gene da música? Objeto de intensos debates, a questão sobre a existência de uma predisposição à prática musical divide os cientistas: um cérebro predisposto e um cérebro treinado são, na verdade, idênticos.

Por falta de provas convincentes, é difícil saber se existe realmente um ‘’gene da música’’. Em compensação, estudos mostram que certas variações genéticas favorecem sua aprendizagem, principalmente aquelas que reforçam a percepção auditiva, a destreza motora, ou traços de personalidade como abertura de espírito ou agilidade cognitiva. Estas predisposições contribuem para o engajamento inicial, mas, em longo prazo, são a experiência e a prática as responsáveis pela famosa ‘’plasticidade cerebral’’.
©Getty Images Plus- Nattakorn Maneerat.jpg
©Getty Images Plus-abzerit O ritmo no sangue Há alguns anos atrás, marcar o ritmo batendo o pé, compassadamente, ou dançando parecia ser o apanágio das espécies dotadas de vocalização, como os humanos – desde o nascimento – ou os papagaios. Contudo, novos estudos demonstram que os grandes macacos ou as focas dançam também com ritmo! Esta habilidade poderia encontrar sua origem nos neurônios, como indicam recentes experiências em neuroimagem: as oscilações elétricas das células nervosas cerebrais se sincronizam com o ritmo de um estímulo exterior sonoro. ©Getty Images Plus-abzerit.jpg A música seria Universal? No final do século 19, a Escola de Berlim tentou, através de um método comparativo, identificar estruturas musicais universais associadas a comportamentos. Mas esta abordagem encontrou rapidamente seus limites: como isolar padrões musicais suscetíveis de serem comparados, enquanto a música é multiforme em seu uso? Uma canção de amor pode, por exemplo, ser reinvestida em canto revolucionário, um canto de funeral em canção de amor... Seria, então, possível construir uma tipologia musical universal? Alguns cientistas quiseram acreditar nesta possibilidade. É o caso do americano Samuel Mehr, especialista em psicologia cognitiva e do desenvolvimento aplicada à música. Em um estudo publicado em 2019, ele defendeu a natureza histórica universal da música confrontando estatisticamente as estruturas musicais oriundas de 60 culturas humanas. Mas para os etnomusicólogos, os dados retidos por Samuel Mehr apresentam linhas idênticas àquelas da Escola de Berlim: como uma ‘’música de dança’’ pode ser oposta a uma ‘’música sacra’’ quando todos os rituais religiosos africanos são dançantes? Além disso, se a música ocidental é geralmente contemplativa, ela é frequentemente participativa em outras culturas: ela não é ouvida, ela é realizada! A universalidade da música não é, então, monolítica. E se os seres humanos compartilham um gosto pela música, os dados etnográficos mostram que as estruturas musicais e seus comportamentos associados são culturalmente marcados. A música seria Universal? Seria possível construir uma tipologia musical universal com padrões de utilização associados? A questão continua sendo profundamente debatida. HD-Aux-frontières-des-émotions Nas fronteiras das emoções As mesmas emoções musicais são compartilhadas tanto nos Estados Unidos quanto na China? Para responder a esta questão, psicólogos americanos testaram as emoções sentidas por 1 591 americanos e 1 258 chineses ao escutarem 2 168 trechos musicais oriundos destas duas regiões do mundo. Algumas emoções são convergentes, como o divertimento, o devaneio ou o medo… No entanto, as características afetivas gerais – como o caráter agradável ou desagradável de uma música - são muito menos compartilhadas. A emoção musical conserva, então, sua parte de subjetividade. HD-Aux-frontières-des-émotions.png Curar as feridas do cérebro Equilíbrio emocional, desenvolvimento da socialização e da autonomia dos pacientes... a música surgiu, há muito tempo, nos hospitais e mostra desde então seus benefícios. De fato, ela dirige a atenção dos pacientes para um estímulo agradável. Além disso, ao ativar os circuitos ditos ‘’da recompensa’’ - quer dizer, ligados ao prazer e à motivação –, ela permite liberar substâncias como a dopamina e a noradrenalina que reduzem de 10 a 50 % a dor, segundo estudos feitos em cancerologia e em fase terminal. O ritmo faz também maravilhas. Os fonoaudiólogos trabalham com a música com o intuito de restaurar uma produção linguística fluida nos pacientes que sofrem de complicações motoras da linguagem. Os neurologistas, por sua vez, a utilizam para alterar os circuitos cerebrais de portadores de Parkinson e permitir uma desinibição motora: uma música animada, com pulsação clara, permite que os pacientes ajustem seus passos em um ritmo contínuo. Enfim, as últimas experiências de musicoterapia põem em evidência efeitos duráveis de neuroplasticidade. Assim, em 2018, um estudo canadense mostrou uma melhoria da comunicação social e da conectividade cerebral funcional entre crianças autistas. Curar as feridas do cérebro Redução da dor vivida, melhoria das relações sociais e da autonomia: a música mostra seu interesse no meio hospitalar. ©Getty Images Plus -helicefoto "Reparar" o cérebro de bebês prematuros Prova de uma musicoterapia eficaz, uma cantiga de ninar especialmente composta para os prematuros lhes permite alcançar uma maturidade cerebral próxima àquela dos bebês nascidos a termo. Foi o que mostrou ensaios clínicos realizados em 2019 por uma equipe suíça: a música age sobre a “rede de saliência” que permite classificar os diferentes estímulos externos, segundo sua pertinência, e facilita sua comunicação com outras áreas cerebrais – córtex auditivo, sensório-motor ou frontal. Uma esperança para estas crianças que sofrem frequentemente de retardos no desenvolvimento neurológico. ©Getty Images Plus -helicefoto.jpg Áudio Alzheimer: a música pode recriar o elo Segundo o neuropsicólogo Hervé Platel, a música traz benefícios no cuidado de pacientes portadores de doenças neurodegenerativas A música pode também ser interessante no cuidado de pacientes que têm alguma
doença neurodegenerativa, como o Alzheimer. Mostramos, com os métodos de neuroimagem cerebral, que a música é uma atividade que estimula nossa capacidade de associar informações. Em nosso cérebro, os circuitos da memória, os circuitos emocionais, os circuitos motores, os circuitos perceptivos são, ao mesmo tempo,
solicitados. Todo mundo sabe que a doença de Alzheimer é uma doença da memória.
Então, ao longo da doença, os pacientes vão ter cada vez mais dificuldades em poder manter novas informações na memória, no sentido de poder fixar novas lembranças.
Eles vão ter também grande dificuldade, primeiramente, em poder se lembrar de seu
passado recente e, depois, das informações do passado distante. Graças à música, conseguimos com grande eficiência tirar os pacientes de sua apatia, deste fenômeno de retraimento, e preservar uma interação, uma comunicação quando os fazemos
escutar música, principalmente músicas. Vimos pacientes, repentinamente, se
recuperando, sorrindo. Mesmo as letras, as palavras das músicas, ressurgem e eles começam a cantarolar, a cantar. Muitas experiências mostram que se estimularmos estes pacientes regularmente com músicas conhecidas, será mais fácil para eles evocar lembranças pessoais, mostrando assim que eles terão a capacidade, a fluidez de se lembrar de curiosidades de suas vidas. Eles teriam muito mais dificuldade em
evocá-las se não tivesse sido utilizado um suporte musical, uma canção para ajuda-los a recuperar estas lembranças. A música já se mostra muito potente em sua
capacidade de estimular a memória antiga destes pacientes com Alzheimer. Então,
como se explica esta memória musical? Ela se mantém, ela não é destruída. Ao passo
que várias outras coisas de seu conhecimento sobre o mundo, sobre sua vida são
totalmente destruídas. No início, era um grande mistério, mas começamos,
definitivamente, a ter explicações graças, também, à neuroimagem. Assim, foi
possível realizar atividades de memória e pedir-lhes para dizer se tal ou tal melodia
lhes era familiar ou não, ou pouco familiar. E, de fato, o que observamos, em relação a
esta memória musical, é que ela envolve o cérebro de maneira muito, muito ampla,
muito mais ampla do que quando fazemos o mesmo tipo de tarefa utilizando apenas
as palavras. As palavras de linguagem de seu conhecimento envolvem redes
cerebrais muito específicas. Poderíamos mesmo dizer super específicas, que são
representadas no cérebro em regiões bem delimitadas, principalmente no hemisfério
esquerdo do cérebro. Por outro lado, para a música, vamos ter uma representação de
conhecimentos musicais que é muito mais ampla, o que pode explicar, de certa
maneira, a resistência desta memória musical, destas representações musicais,
apesar da alteração cerebral causada pela doença. Porém, podemos ir muito mais
além destes benefícios. Algumas experiências nos mostraram que, de maneira
totalmente inesperada, ou contra intuitiva, é possível fazer com que os pacientes
cantem ou escutem, mesmo sem lhes pedir para cantar, melodias de canções que
eles não conheciam antes. Não se trata aqui de lhes fazer escutar músicas antigas.
Evidentemente, já é esperado que, se fizermos uma sessão de canto, em um curso de
música, ele não se lembrará das novas melodias uma semana mais tarde. É o que
acontece se fizermos isso uma vez, duas vezes, três vezes e depois pararmos. Mas se
continuarmos e insistirmos um pouco mais, perceberemos que haverá um fenômeno
totalmente autônomo de conservação de registro do que foi repetido. Isto ocorre, no
canto, com novas músicas que foram aprendidas. E vimos que 90% dos pacientes,
após cinco ou seis sessões, acabaram dizendo: « oh, eu conheço esta música; ah, eu
já tinha ouvido”! Muitos dentre eles poderão espontaneamente, ao ouvir a primeira frase da canção, continuar cantando sozinhos. Eles não vão se lembrar da letra, mas
vão se lembrar da melodia. Assim, o que pode ser demonstrado com a música é que
há uma boa preservação da memória antiga musical, mas que, além disso, graças à
música, é possível demonstrar que a experiência vivida pelos pacientes, quando
fazem ateliers de música, ateliers de canto, mesmo com novas informações, pelo
efeito da repetição, vai permanecer na memória, sem codificação, quer dizer, de
maneira inconsciente. Estes pacientes não são capazes de dizer que aprenderam algo
novo, mas, mesmo assim, aprenderam muito, chegam mesmo a se lembrar durante
vários meses. Mesmo quando, após três meses, não lhes mostramos a canção e
somente o texto de um poema ou de uma canção, e perguntamos: “isto te diz alguma
coisa”?”, 80% dos pacientes dizem: “sim, me soa familiar, deve ser uma música”.
Alguns pacientes foram, surpreendentemente, capazes de se lembrar da melodia e
cantarolar uma canção aprendida três meses antes. Eles foram totalmente envolvidos.
Então, falamos da repetição, do sentimento de familiaridade e da aquisição de
algumas novas informações que são fortemente reveladas pela música, porque é um
estímulo muito rico. Existem muitas variáveis na música: o ritmo, o timbre, a melodia
que faz com que o cérebro os mobilize de maneira intensa. A repetição desta
mobilização intensa se mantém no cérebro e deixa vestígios.
Transcrição do áudio:
Vídeo Vídeo Balada para um cérebro musical - Ester Pineda, pianista, pedagoga e pesquisadora, se interessa pelos meandros da atividade cerebral ao explorar as representações mentais do pianista. Diretos de exibição do filme no Brasil, cedidos gentilmente por Ester Pineda.
MERCI merci
Aliança Francesa Belo Horizonte MÚSICA E CÉREBRO:
A COMBINAÇÃO PERFEITA
Cité Exposição concebida pela Cidade das Ciências e da Indústria, um espaço Universcience.
Agradecimento especial a Ester Pineda pela cessão dos diretos do filme ''Balada para um cérebro musical''.
Embaixada da França no Brasil
17 de março de 2021

Música e cérebro: a combinação perfeita